
Cronista das emoções humanas, o autor Manoel Carlos morreu neste sábado, dia 10 de janeiro de 2026, aos 92 anos. Em homenagem à carreira de Maneco, como era carinhosamente chamado, a TV Globo vai trazer matérias em seus programas e telejornais e reexibir ‘Tributo – Manoel Carlos’, logo após a estreia do ‘BBB’ na próxima segunda-feira, dia 12. O especial reúne atores e atrizes que deram vida a personagens inesquecíveis de suas histórias e que revisitam os sets de gravação e os bastidores compartilhados. Carolina Dieckmann, Susana Vieira, Alinne Moraes, Antonio Fagundes, Deborah Secco, Tony Ramos, Gabriela Duarte, Lilia Cabral, Mateus Solano, Mel Lisboa, Vera Holtz e Vivianne Pasmanter estão entre os artistas que emprestam suas memórias para celebrar um autor que construiu uma das obras mais sensíveis e reconhecíveis da teledramaturgia brasileira, transformando o cotidiano em matéria-prima para grandes emoções.
Filho do comerciante José Maria Gonçalves de Almeida e da professora Olga de Azevedo Gonçalves de Almeida, Manoel Carlos Gonçalves de Almeida nasceu em 14 de março de 1933, em São Paulo. Ainda adolescente, aos 14 anos, frequentava diariamente a Biblioteca Municipal de São Paulo. Ali, no grupo “Os Adoradores de Minerva”, dividia leituras e debates sobre literatura, filosofia, política e arte com jovens como Fernanda Montenegro, Fernando Torres, Fábio Sabag, Flávio Rangel e Antunes Filho, em encontros que antecipavam, sem que soubessem, uma geração inteira dedicada a contar histórias ao Brasil.
Um dos precursores da televisão brasileira, Manoel Carlos pisou pela primeira vez em um estúdio aos 17 anos, na TV Tupi. O talento precoce logo se impôs: no ano seguinte, foi reconhecido como ator revelação. Vieram então os anos de formação intensa, atravessando a fase inaugural da TV Record, passando pela TV Itacolomi, em Belo Horizonte, pela TV Rio e pela TV Tupi do Rio de Janeiro. Entre câmeras, cenários e textos ao vivo, atuou como ator e diretor e adaptou mais de cem teleteatros, aprendendo, na prática, o ritmo, a urgência e a poesia da dramaturgia televisiva. Na década de 1960, integrou as últimas produções da TV Excelsior, período em que dividiu cena e criação com nomes fundamentais da cultura brasileira, como Chico Anysio, Ziraldo e Mário Tupinambá, consolidando um percurso feito de experimentação, talento e encontro com grandes mestres.
Manoel Carlos chegou à Globo em 1972 como diretor-geral do Fantástico, o que aprofundou sua escuta da realidade e do comportamento humano. Sua primeira novela na Globo foi ‘Maria, Maria’, em 1978. Autor das inesquecíveis “Helenas”, criou personagens femininas complexas, fortes e contraditórias, capazes de amar intensamente e de errar com a mesma profundidade. De Regina Duarte a Vera Fischer, de Christiane Torloni a Taís Araújo, de Maitê Proença a Julia Lemmertz, essas personagens marcaram gerações ao colocar no centro da trama sentimentos como culpa, desejo, maternidade e redenção.
Manoel Carlos nunca teve pressa para contar histórias. As tramas se desenvolviam no ritmo da vida real, com longas conversas à mesa, caminhadas pela orla e conflitos que nasciam de pequenos gestos. Cenas que ficaram gravadas na memória coletiva revelam sua assinatura autoral: quando uma mãe troca o próprio filho pelo da filha em ‘Por Amor’; o câncer de Camila (Carolina Dieckmann), que fez o país chorar ao som de “Love by Grace” em ‘Laços de Família’; ou ainda os diálogos maduros de ‘Mulheres Apaixonadas’, que abordaram violência doméstica, envelhecimento e intolerância.
Sem discursos fáceis, ele deu voz a dores silenciosas e ajudou o país a conversar sobre amor, família, ética e responsabilidade afetiva. ‘Laços de Família’ provocou um aumento expressivo nas doações de medula óssea no país, ao transformar um tema pouco conhecido em uma causa nacional. Já a revolta do público diante dos maus-tratos de Dóris (Regiane Alves) aos avós em ‘Mulheres Apaixonadas’ ajudou a intensificar o debate público sobre o envelhecimento e a dignidade dos idosos, em um momento crucial que antecedeu a consolidação do Estatuto do Idoso.
Maneco conheceu de perto a dor que muitas vezes escreveu. Sua vida foi atravessada por perdas profundas. Três dos cinco filhos morreram ainda jovens: Ricardo de Almeida, em 1988, em decorrência do HIV; Manoel Carlos Júnior, em 2012, após um ataque cardíaco; e Pedro Almeida, em 2014, vítima de um mal súbito. Ele deixa duas filhas: a escritora e roteirista Maria Carolina e a atriz Júlia Almeida.
O último trabalho de Manoel Carlos como autor de novela foi ‘Em Família’, exibida em 2014, encerrando uma trajetória marcada pelo olhar sensível para as relações humanas, que fizeram de suas novelas um espelho delicado da vida urbana, especialmente do bairro do Leblon, no Rio de Janeiro, que se tornou quase um personagem constante em sua narrativa.
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